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Figura art Papel

Professor de papel

Há muito leio textos sobre o papel do professor. Claro, pelo menos em grande maioria, os textos remetem também à professora. Coisas da língua pátria e das relações de gênero que temos, mantemos ou mudamos.

Das pessoas, professores e professoras, se espera que desempenhem múltiplas atividades, reduzidas a expressão ‘papel’ (sinônimo de missão institucional, função, capacidade, tarefa, etc.). O papel, singular, não expressa bem as plurais tarefas/funções/capacidades que se espera desses/as profissionais. Recorrendo a alguma leitura, descobri também que não existe um papel.

Que professor/a serei então?

Serei um/a professor/a papel artesanal, ‘feito/a a mão’, a partir – quem sabe – de poucos aditivos químicos poluentes? Ou um/a professor/a papel autocopiativo, “de alto valor agregado, que consiste basicamente de um papel convencional que recebe um tratamento superficial de agentes químicos especiais que quando entram em contato físico direto desenvolvem reação formadora de imagem”?

Um/a professor/a assim, artesanal e autocopiativo, também é aquele/a que se constrói sozinho/a? Mas, é possível nos construirmos sozinhos/as, baseados/as apenas em nossas reflexões de nossas leituras ou de nossas práticas educativas? Quando lemos, já não estamos deixando de sermos apenas nós mesmos? Esse ‘EU’ absoluto tem alto valor agregado? Agrega o quê?

Quem sabe um/a professor/a papel bíblia, ‘papel finíssimo, quase transparente’? Ou um/a professor/a papel seda?

Um/a professor/a assim, finíssimo e transparente, é aquele/a que tem bons modos? Educado/a? Cortês? É aquele/a que desliza e se esconde por detrás das muitas invisibilidades que escolas e outras instituições sociais possibilitam-nos não nos implicarmos com os processos sociais e suas produções? Ou é aquele/a que é claro/a em suas posições e formas de trabalhar, e solidário/a no seu avaliar e questionar?

Quem sabe um/a professor/a papel jornal ou termossensível, de baixo custo, “feito de restos de móveis, reciclado ou ainda para máquinas impressoras baratas, como calculadoras”?

Um/a professor/a assim – sonho de consumo de muitos/as gestores/as públicos/as – é aquele/a que não se envolve em greves? Que detesta os poemas de Brecht, especialmente aquele infame, intitulado ‘Analfabeto Político’? Que se atualiza didático-pedagogicamente com as matérias de jornal? Ou é aquele/a que expressa em seu cotidiano certa desconfiança sensível, térmica porque à flor da pele? Uma desconfiança amiga da curiosidade, que implica também certa descrença nos reducionismos dos jornais e na certeza de que ler e escrever é tarefa integral de qualquer docência?

Qual professor/a sou ou serei importa muito para mim e para muitos/as professores/as. Importa, especialmente, não ser um/a professor/a papel em branco, pois, assim como os/as estudantes com os/as quais trocamos experiências e saberes vida a fora, também temos leitura social extraclasse. Também temos nossas trajetórias de vida. Também somos humanos/as e rimos, choramos, amamos… Também rasgamos quando não cuidados/as e não valorizados/as.

José Carlos Sturza de Moraes | Publicado no Jornal EXTRACLASSE (SINPRO/RS) – NOV 2012


 

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Enc CSBicho de Sete Cabeças

As práticas sociais contemporâneas, como o uso liberado, regulado ou proibido, de algumas substâncias psicoativas e suas implicações para o sujeito e para a sociedade são extremamente heterogêneas, assim como se esperam, heterogêneas sejam as abordagens que demandam.

Nesse sentido, é importante a discussão do Crack no RS, mas de forma mais contextualizada, partindo das múltiplas denúncias de quem trabalha com população de rua há mais de uma década – quando a ênfase ainda era o Loló – e chegando ao momento atual, em que a ‘pedra’ atinge também significativa parcela de pessoas de classe média e alta. Em maio último, a Associação do Ministério Público do RS, começou o trabalho de denúncia mais enfático do Crack. Campanha com enfoque – inclusive de marketing – diferenciado do da RBS, que, após isso, vem popularizando e ‘aterrorizando’ com o tema. A primeira propôs – e tem mantido – o lema: ‘Ignorar é seu vício?’, enquanto a segunda propõe ‘Nem pensar!’. Ambas intervenções, contudo, vem tendo atuação em parceria, difundindo em todos os lugares que o vício se pega na primeira experimentação e que não há recuperação ou que essa, quando possível, é duvidosa, demorada e cara.

Na esteira menos óbvia de toda a discussão, em meio a uma conjuntura de retrocesso na implantação da reforma psiquiátrica, o que se apresenta é uma tentativa de retorno a centralidade da psiquiatria como detentora do saber sobre as produções psíquicas, numa perspectiva da neurociência, descontextualizando a questão enquanto produção social, ou seja, produção coletiva agenciada por muitos atores. O Crack anda na direção deste movimento, portanto, querem se justificar intervenções químicas e internações psiquiátricas como solução únicas (ou verdadeiras).

É um momento, portanto, tenso. Um período onde muitas conquistas refletidas socialmente por muita gente que se ocupa do tema são facilmente vencidas por ‘espetacularismos’ de toda ordem. O apelo ao imediato, da negação de direitos e da internação, ao medo que se instala dentro das famílias (‘porque é ali que o inimigo está, não na esquina, mas no primo, no tio. Dentro de sua casa’, como têm reiterado palestrantes em escolas e comunidades) criando um clima de guerra, onde quem tem outras palavras a respeito pouco espaço tem, ‘porque isso tudo é muito bonito no papel, mas a realidade é bem diferente’.

Esquecem-se (?) aqueles e aquelas que propagam que ‘o inimigo’ não são aqueles que questionam as verdades da internação psiquiátrica e da criminalização a todo custo; que quase todas as pessoas que defendem outros tratamentos à questão são familiares, atuais ou ex-usuários e centenas de trabalhadores/as em saúde mental. Pessoas que vêem essa realidade nas calçadas, becos, matos e nas múltiplas instituições de cuidado apostando em práticas que vão desde a redução de danos até outros mecanismos previstos em lei para o tratamento ambulatorial de dependentes químicos.

Nesse contexto, parece não haver maior inimigo do que a intolerância (prática tão nefasta quanto a omissão). Até porque, psiquiatras, psicólogos, outros profissionais de saúde, sociólogos, antropólogos e tantas outras áreas do conhecimento, assim como usuários, ex-usuários, familiares – todos – têm muito a contribuir em termos de intervenção.

Além disso, parece que buscar ‘a verdade’, criando ‘bichos de sete cabeças’, monstros, bandidos e ‘um só mocinho’ (o saber psiquiátrico), mais do que infantil pode ser um discurso útil para manter certos locais de cuidados que não mais deveriam existir, porque há muito se sabe que não realizam a função que alardeiam, mas outra, avessa ao cuidado. Isso, fora o fato de estarmos tratando de apenas um tipo de droga e pensando apenas no nível do indivíduo, desprezando que tal prática é uma construção social, que atende a muitos interesses, assim como outras práticas semelhantes, como o uso abusivo de álcool, que também ‘corrói famílias’, mas ajuda a alimentar indústrias e a ser uma importante fonte de recursos para todas as mídias.

Quando se criam estereótipos tipo ‘exército de zumbis’ (adjetivo usado em relação aos usuários de Crack) que abordagens podem nos vir à mente. O que se faz com zumbis em filmes? Se não isso, por que não apenas encarcerá-los? Afinal, se têm recuperação duvidosa e certamente demorada, porque manter no convívio social?

José Carlos Sturza de Moraes | Cientista Social e Professor | (*)Artigo/Jornal do Centro, Porto Alegre, Julho/2010


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c6ad0a0ff73e4513808b562de42a0b63_violncia.2Mais cidadãos, menos violência

Há muito temos a certeza de ter deixado a insegurança dos conceitos e das teorias e encontrado a insegurança do real. Certeza manifesta nos noticiários e nos relatos de pessoas de nossas relações. Tendo em vista essa realidade que tem se presentificado, creio que é hora de sairmos do esconderijo chamado cidadão comum. Pois, por trás do geralmente auto-adjetivo de cidadão comum esconde-se a uma desculpa e uma acusação; a desculpa de não se implicar com as situações que se critica e a acusação a outros, normalmente indefinidos, pelos males porque se passa
A postura do cidadão comum longe de inócua, é cúmplice ativa de processos vários que levam, por exemplo, ao estado de violência e insegurança porque passamos. Embora num primeiro momento assemelhe-se com uma declaração de baixa-auto-estima ou menos-valia, na verdade expressa um suposto lugar de respeito e seriedade, que não se macula com os acontecimentos mundanos criticados. Talvez seja hora de nos tornarmos mais cidadãos. Cidadãos com ‘C’ maiúsculo, não cidadãos comuns, que não têm responsabilidade pelo que acontece ao redor. Pois é no dia-a-dia que se constróem outras possibilidades de realidade social.
No domingo, dia 12 de fevereiro, por exemplo, na partida de futebol entre o Grêmio e o Guarani de Venâncio Aires, o narrador fez um feliz comentário e que expressa um pouco o que penso: comentou que havia uma faixa junto na torcida do meu clube dizendo “Treino é treino” e “Jogo é guerra”, ao que discordou e apontou a incitação à violência ali expressa. Essa ação do narrador não parte de uma autoridade, resulta de conduta profissional, ética, de alguém que tem responsabilidade com a não-violência.
Ano passado, outro exemplo, outras Cidadãs e Cidadãos, de diversas Ongs, conseguiram que o Congresso aprovasse a lei conhecida como “Maria da Penha”, que criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, inclusive com a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, aumentando a segurança para as denunciantes e o tempo de reclusão dos condenados. Maria da Penha Maia, professora universitária, começou a atuar em movimentos sociais contra violência e impunidade, depois de ficar paraplégica (vítima de tentativas de homicídio de seu ex-marido), e hoje é coordenadora da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV) no Ceará. Existe sim muito o que se fazer, só que dá mais trabalho que só se queixar.
O Instituto Amigos de Lucas tem estimulado o Apadrinhamento Afetivo, prática que busca apoiar fraternalmente crianças e adolescentes que nossa sociedade tem legado a falta da família e que vivem em abrigos no estado. Em todo país existem ações, muitas invisíveis, de pessoas comuns, mas Cidadãos, ávidas na promoção de uma sociedade menos violenta. E uma sociedade menos violenta se faz com a defesa de direitos, mesmo em épocas de crise como a que vivemos, onde os sistemas mostram suas falhas e podemos nos por em movimento para suas correções. Nas salas de aula, em nossas casas, praças, etc sempre há o que se fazer como atores principais de mudanças no cotidiano (sem as mágicas inexistentes do instantâneo), que firmam alicerces seguros para um futuro nem tão distante, se diminuirmos o número de cidadãos comuns.
José Carlos Sturza de Moraes | Publicado no Site Pauta Social, em 22/02/2007.

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imagesCALTODOSCom a Mamãe e Papai Noel
          Com a chegada do final do ano, das festas natalinas e de ano novo, muitos de nós fazemos balanços existenciais. Do que conquistamos e do que queremos para o próximo período. Nossa sociedade se move assim, criando ritmos e modos de viver que parecem naturais, mas que são socialmente construídos.
          Anos atrás, Martha Medeiros, colunista de ZH, escreveu um texto intitulado Mamãe Noel, onde afirma que Papai Noel não existe porque é homem. Em Mamãe Noel, Martha, com muito bom humor, retoma a lógica da mulher que conhece brinquedos e lojas e do homem que nem comprar suas meias sabe.
          O texto é super interessante para as mulheres. Faz-nos rir, inclusive homens, pelo talento de Martha e pelo senso comum impregnado em nossa consciência individual, coletivamente construída.
          Porém, tenho que discordar de Martha, Papai Noel existe. Ou melhor: momentos como o do Natal são possíveis também porque homens se colocam a tarefa de Noel. Homens também conhecem a Polly, o Max Steel, a Turma da Mônica, e até sabem comprar suas meias.
          Aprofundando um pouco mais, entre 1993 e 2007 cresceu em mais de 30% o número de lares classificados como “homens com filhos”, representando 3% do total de famílias brasileiras. Embora, esmagadoramente, sejam as mulheres as responsáveis únicas, cresce também a participação de homens cuidadores tanto individualmente quanto em parceria com a mulher e não só para comprar, mas para levar à pracinha, dar banho, ir à escola e ao médico, etc.
          O lugar de única capaz do cuidado, inclusive daqueles simbólicos (do universo dos sonhos e desejos), tragicamente é também o lugar da mulher sobrecarregada com o fardo de cuidar dos outros e pouco de si. Uma contradição já tantas vezes estudada, discutida, e que persiste. E, por outro lado, o do homem como desajeitado, que não sabe cuidar ou, pior, em quem não se pode confiar para o cuidado com crianças, especialmente se pequenas ou meninas, é também trágico: é o da construção da ausência paterna (do pai que não está ou do que está e não se faz presente).
          Ambas construções, da mulher super (mãe, cuidadora, sábia em relação a criação de filhos) e do homem pouco (pai, cuidador, sábio…) por serem culturalmente construídas, felizmente, podem ser questionadas.
         Talvez um exercício interessante neste final de ano seja pensarmos um pouco sobre o quanto realmente nossa mãe, nosso pai, companheiro ou companheira realmente está ausente ou presente e no quanto sabe-faz cuidar de nós mesmos/as e de nossos/as filhos/as. Assim como o quanto deixamos e ajudamos que algo mude ou continue acontecendo.

José Carlos Sturza de Moraes | Cientista Social e Professor – (*) Publicado no site Pauta Social. 2010


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 imagesControle social em perigo

       Notícia da Folha de São Paulo, de 21 de outubro, trouxe uma manchete importante: “Campanha de … faz ofertas a evangélicos”. A notícia, que não foi formatada enquanto denúncia, mas como um fato de campanha é importante para reflexão por muitos motivos. Motivos que transcendem o momento eleitoral e precisam ser analisados por toda a sociedade. Os programas de atendimento no turno inverso à escola e apoio ao aleitamento materno, benefícios assumidamente oferecidos às igrejas na matéria não poderiam ser ofertados, nem por governante nem por candidato a governo.
     Isto porque são programas de atendimento à criança e ao adolescente, que obedecem – ou deveriam – a regulamentação já existente e transparente, onde igrejas – de qualquer credo –, entidades comunitárias e desportivas sempre puderam atuar e atuam. Porém, a atuação de entidades nessa área legalmente não depende mais da boa ou má vontade do governo de plantão, como era antes da vigência da atual constituição, do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei Orgânica de Assistência Social. Elas precisam apenas organizar seus serviços e se cadastrarem nos Conselhos de Assistência e dos Direitos da Criança e do Adolescente, respeitando legislações e normas de atendimento.
     Após, são fiscalizadas por esses mesmos órgãos, conselhos tutelares e ministério público. Oferecer às igrejas outros privilégios ou passar por fora dos controles sociais é desrespeitar a legislação e ferir o princípio da independência do Estado em relação às religiões. Assim, a “promessa de apoio a parcerias entre essas igrejas e entidades assistenciais a elas vinculadas com prefeituras e governo, em caso de vitória” é algo muito sério. A ênfase de atendimento de entidades conveniadas ao poder público não é a de “é levar as crianças para dentro da igreja”, como afirmou um pastor que faz a coordenação de adesões a uma candidatura presidencial em São Paulo.
     Não é a catequese, mas a educação complementar, o acesso ao esporte, à cultura e ao lazer, que deve ser alvo das ações de qualquer entidade conveniada – até porque devem atender as necessidades de uma população regional, com composição religiosa diversa (católicos, umbandistas, evangélicos, etc.).
     Em Porto Alegre, por exemplo, existem centenas de entidades conveniadas com o poder público municipal e existem várias dessas vinculadas direta ou indiretamente a igrejas. Elas ingressaram no atendimento sem a bênção do governante de plantão e, mais importante, vez que outra são advertidas ou têm seus convênios rescindidos não por compromissos eleitorais, mas por boa ou má gestão dos recursos públicos repassados ou por adequação da forma de atendimento (desde questões de salubridade de prédios até o atendimento pedagógico correto). Voltar ao tempo em que políticos decidiam livremente sobre convênios públicos, sem a interferência da sociedade civil organizada que realiza a maior parte trabalho assistencial, é um retrocesso que não faz bem à democracia, nem a construção de um país socialmente mais justo e plural em termos políticos e religiosos.
José Carlos Sturza de Moraes | Cientista social – Artigo publicado no portal Pauta Social, em 29/10/2010.

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CLIOA

Artigo aprovado e apresentado no IX Congresso Latino-Americano Interdisciplinar do Adolescente. Sobre o direito à participação de crianças e adolescentes. Confira:

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